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Mostrando postagens de março, 2026

Gota D’Água, no tempo

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Ensaio de crítica  Por Arnaldo D'Ávila  O espetáculo Gota D’Água, no tempo , dirigido e protagonizado por Georgette Fadel e CristianoTomiossi , nos coloca diante de uma questão incômoda: que século é este em que vivemos? Apesar de estarmos no século XXI, a peça escancara que pouco mudou desde os anos 70, quando Paulo Pontes e Chico Buarque criaram essa releitura de Medeia. A tragédia continua atual, revelando que as estruturas de poder e o machismo permanecem intactos, como feridas abertas que insistem em não cicatrizar. Cristiano Tomiossi e Georgette Fadel  - foto de Barbara Campos  A decisão de apresentar a obra ipsis litteris, sem grandes adaptações, é uma escolha ousada e certeira. Georgette conduz a narrativa com ironia e inteligência, transformando o público em coro vivo, cúmplice e crítico das atrocidades machistas que ecoam no palco. A interação direta com a plateia cria uma atmosfera vibrante, em que cada palavra ressoa como denúncia e cada gesto se torna ...

Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi retomam Gota d’Água em nova montagem

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Vinte anos após a temporada de Gota d’Água Breviário , Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi voltam a interpretar Joana e Jasão em uma nova montagem do clássico de Chico Buarque e Paulo Pontes . O espetáculo, intitulado Gota d’Água – no tempo , estreia em 27 de março no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, e segue em cartaz até 3 de maio de 2026. A remontagem é assinada pela Cia. Coisas Nossas de Teatro , com direção geral de Georgette e codireção de Cristiano . Escrita em 1975, durante a ditadura militar, a peça transporta a tragédia de Eurípides para a fictícia Vila do Meio-Dia, comunidade periférica do Rio de Janeiro. A trama acompanha Joana, abandonada por Jasão quando ele decide se casar com Alma, filha de Creonte, poderoso dono do conjunto habitacional. Mais do que um drama amoroso, a obra expõe as desigualdades sociais brasileiras e as relações de poder, permanecendo atual cinco décadas após sua criação. Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi - foto de Barbara Campos Um dos dif...

A Hora do Boi em cartaz no Teatro Ágora

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Ensaio de crítica  Por Arnaldo D'Ávila  A peça A Hora do Boi , protagonizada por Vandré Silveira , revela um trabalho de ator de grande fôlego e precisão. A construção das personagens é marcada por nuances criativas e instigantes, sustentadas por uma voz firme, movimentos expressivos e uma entrega emocional que prende o espectador. O texto, rico em referências que vão de Shakespeare a Guimarães Rosa, passando por Baudelaire, Zé Ramalho e Chico Buarque, cria uma tessitura literária que amplia o alcance da dramaturgia. Ainda que alguns ajustes pudessem lapidar melhor a estrutura dramatúrgica, o espetáculo se afirma como um exercício de teatro em sua essência, sem recorrer a artifícios desnecessários. Vandré Silveira -  Foto: Lorena Zschaber/Divulgação A cenografia, concebida por Carlos Alberto Nunes , aposta na simplicidade simbólica: correntes e carcaças de gado que evocam tanto a brutalidade quanto a memória cultural. A iluminação, assinada por Renato Machado e Anderson ...

Ensaio Sobre a Memória estreia hoje no CCBB e faz temporada com ingressos grátis

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A encenação Em cartaz de 26 de março a 6 de abril de 2026 no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo, a montagem de Ensaio Sobre a Memória parte da investigação de um homem que, após ser torturado durante um regime militar latino-americano, teria delatado seus companheiros, e passado o resto da vida tentando reescrever esse passado. Com dramaturgia e direção de Marcelo Flecha , a peça se constrói como um labirinto narrativo. Um escritor e sua assistente conduzem a investigação em cena, reencenando versões contraditórias da mesma história. Nesse processo, memória e imaginação se confundem, colocando em xeque a ideia de verdade única e revelando as camadas de construção, e manipulação, dos relatos históricos. ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA- foto: divulgação  Inspiração literária Livremente inspirado no conto A outra morte, de Jorge Luis Borges, o espetáculo desloca o foco do acontecimento para sua interpretação. Mais do que reconstituir um fato, interessa à encenação expor os mecanismos q...

Experiência Sensorial Entrega um Hamlet Pulsante

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"Hamlet, Sonhos que Virão" Crítica  por Edgar Olimpio de Souza  No esqueleto de concreto do desativado Cine Copan, em São Paulo, a nova montagem de Rafael Gomes encontra palco visceral. Mais do que cenário, de André Cortez , a arquitetura inacabada, com ferragens expostas e o pó acumulado, age como organismo que digere a tragédia de Shakespeare . O prédio, em seu estado de ruína, torna-se um personagem mudo. Ao abraçar o conceito de site-specific, em que traços físicos e históricos do local integram a dramaturgia, a encenação permite que o entulho e paredes descascadas ditem a temperatura de uma corte em decomposição moral. Gabriel Leone  - foto: Bob Wolenson / divulgação   A dessacralização do clássico, vital para evitar a museologia estéril, ganha fôlego na luz de Wagner Antônio . Sua iluminação recorta clareiras na penumbra, evocando o suspense do film noir. O figurino de Alexandre Herchcovitch funde o rigor clássico do cinza ao streetwear. Por meio do design de...