A Hora do Boi em cartaz no Teatro Ágora

Ensaio de crítica 

Por Arnaldo D'Ávila 

A peça A Hora do Boi, protagonizada por Vandré Silveira, revela um trabalho de ator de grande fôlego e precisão. A construção das personagens é marcada por nuances criativas e instigantes, sustentadas por uma voz firme, movimentos expressivos e uma entrega emocional que prende o espectador. O texto, rico em referências que vão de Shakespeare a Guimarães Rosa, passando por Baudelaire, Zé Ramalho e Chico Buarque, cria uma tessitura literária que amplia o alcance da dramaturgia. Ainda que alguns ajustes pudessem lapidar melhor a estrutura dramatúrgica, o espetáculo se afirma como um exercício de teatro em sua essência, sem recorrer a artifícios desnecessários.

Vandré Silveira - Foto: Lorena Zschaber/Divulgação
A cenografia, concebida por Carlos Alberto Nunes, aposta na simplicidade simbólica: correntes e carcaças de gado que evocam tanto a brutalidade quanto a memória cultural. A iluminação, assinada por Renato Machado e Anderson Ratto, é um dos pontos altos, alternando atmosferas de dia, crepúsculo, noite e aurora com o uso inteligente da contraluz âmbar e azul. O figurino, também de Nunes, além de compor esteticamente, favorece a fisicalidade do ator, permitindo que o corpo se desdobre em metáforas visuais e poéticas que reforçam a narrativa.

Tudo se articula sob a direção delicada e poética de André Paes Leme, que amarra os elementos em uma unidade orgânica. Sua condução evita excessos e privilegia a fluidez, permitindo que o espetáculo respire e que o público se conecte com a densidade simbólica proposta. A Hora do Boi se apresenta, assim, como uma obra que conjuga rigor técnico e sensibilidade artística, reafirmando o poder do teatro como espaço de reflexão e experiência estética.

SINOPSE 

A peça é um solo interpretado por Vandré Silveira e apresenta a trajetória de Seu Francisco, tratador e capataz de um matadouro, que vê sua vida transformada ao desenvolver uma profunda amizade com Chico, o boi que nasceu e cresceu sob seus cuidados. Entre o afeto e a dura realidade de seu ofício, Francisco se encontra diante de um dilema inevitável: o destino de Chico é o abate. 

SERVIÇO 

A peça estreou em 6 de março e vai até 26 de abril de 2026

Sextas e Sábados, às 20h

Ágora Teatro (Rua Rui Barbosa, 664 – Bela Vista)

Ingressos: R$ 100,00 (Inteira) / R$ 50,00 (Meia)

Classificação 14 anos

Vendas na bilheteria do teatro ou pela Sympla

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