Gota D’Água, no tempo

Ensaio de crítica 

Por Arnaldo D'Ávila 


O espetáculo Gota D’Água, no tempo, dirigido e protagonizado por Georgette Fadel e CristianoTomiossi, nos coloca diante de uma questão incômoda: que século é este em que vivemos? Apesar de estarmos no século XXI, a peça escancara que pouco mudou desde os anos 70, quando Paulo Pontes e Chico Buarque criaram essa releitura de Medeia. A tragédia continua atual, revelando que as estruturas de poder e o machismo permanecem intactos, como feridas abertas que insistem em não cicatrizar.

Cristiano Tomiossi e Georgette Fadel  - foto de Barbara Campos 
A decisão de apresentar a obra ipsis litteris, sem grandes adaptações, é uma escolha ousada e certeira. Georgette conduz a narrativa com ironia e inteligência, transformando o público em coro vivo, cúmplice e crítico das atrocidades machistas que ecoam no palco. A interação direta com a plateia cria uma atmosfera vibrante, em que cada palavra ressoa como denúncia e cada gesto se torna metáfora de uma sociedade que insiste em repetir seus erros.

O texto provoca reflexões profundas sobre a responsabilidade das mulheres na formação dos homens e sobre o papel da cultura na perpetuação do machismo. A peça não se limita a narrar uma tragédia pessoal; ela questiona o tecido social e nos faz refletir sobre as estatísticas alarmantes, como o número crescente de feminicídios. Ao provocar essas questões, Gota D’Água, no tempo reafirma sua relevância como obra necessária, ainda que restrita a uma elite cultural, quando deveria alcançar as massas.

Cristiano Tomiossi, como Jasão, entrega uma interpretação à altura da potência de Joana. Seu personagem, o típico homem que abandona a família por status e juventude, é tão verossímil que muitos espectadores sequer reconhecem o machismo em suas atitudes. Essa naturalização é justamente o ponto que a montagem denuncia: a banalidade da violência simbólica e concreta contra as mulheres, que persiste há séculos.

A cenografia minimalista, composta apenas por um praticável e uma cadeira, revela-se suficiente graças à iluminação de Felipe Tchaca e Felipe Fly, seu assistente que também opera. A lâmpada incandescente pendurada no centro do palco, como uma gota ardente, é um símbolo poderoso que traduz a tensão constante da narrativa. A ausência de elementos cenográficos reforça a força do texto e das interpretações, permitindo que a imaginação do público complete os espaços.

O restante do elenco é formado por Débora Veneziani, Joaz Campos, José Eduardo Rennó, Laruama Alves, Leandro Vieira, Lilian Regina, Lívia Camargo e Mawusi Tulani, que sustentam com vigor a densidade da trama. A direção musical de Marco França e Alê Moura acrescenta uma camada ritualística, evocando o universo das religiões afro-brasileiras desde a entrada do público. Essa escolha amplia o alcance simbólico da peça, conectando mito, história e contemporaneidade em uma experiência teatral que pulsa e instiga. 

Essa montagem reafirma que Gota D’Água não é apenas uma obra do passado, mas um espelho cruel do presente. É teatro que arde, que provoca e que insiste em nos lembrar que, apesar de vivermos em outro século, ainda carregamos velhas feridas.


SERVIÇO

GOTA D´ÁGUA - no tempo

Sesc Consolação - Teatro Anchieta - Rua Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque, São Paulo - SP

Telefone para informações: 11 3234-3000

Temporada: 27/3 a 3/5/2026 

Horários: Sextas e Sábados, às 20h. Domingos e feriado (1/5), às 18h

Sessões em horários diferenciados: 

Dias 9, 16 e 23/4. Quintas, às 15h 

Lotação: 280 lugares | Duração: 180 minutos | Classificação: 16 anos 

Ingressos: R$70 (inteira) R$35 (meia entrada) e R$21 (credencial plena)    

Venda on-line em centralrelacionamento.sescsp.org.br  e no App Credencial Sesc SP 

Venda presencial nas bilheterias do Sesc São Paulo



Comentários