Experiência Sensorial Entrega um Hamlet Pulsante

"Hamlet, Sonhos que Virão"

Crítica 

por Edgar Olimpio de Souza 

No esqueleto de concreto do desativado Cine Copan, em São Paulo, a nova montagem de Rafael Gomes encontra palco visceral. Mais do que cenário, de André Cortez, a arquitetura inacabada, com ferragens expostas e o pó acumulado, age como organismo que digere a tragédia de Shakespeare. O prédio, em seu estado de ruína, torna-se um personagem mudo. Ao abraçar o conceito de site-specific, em que traços físicos e históricos do local integram a dramaturgia, a encenação permite que o entulho e paredes descascadas ditem a temperatura de uma corte em decomposição moral.

Gabriel Leone  - foto: Bob Wolenson / divulgação 
A dessacralização do clássico, vital para evitar a museologia estéril, ganha fôlego na luz de Wagner Antônio. Sua iluminação recorta clareiras na penumbra, evocando o suspense do film noir. O figurino de Alexandre Herchcovitch funde o rigor clássico do cinza ao streetwear. Por meio do design de som, a metrópole é trazida ao centro da ação, integrando o ruído urbano real à mise-en-scène. Instalada na área de projeção, a plateia adentra um labirinto psicológico.

O elenco ajustado valoriza a saga do príncipe da Dinamarca envolvido em um jogo de podridão e interesses. Gabriel Leone imprime ao protagonista voltagem febril, sem pompa acadêmica, trocando o lamento pela urgência. Eucir de Souza realiza dobra perturbadora ao viver o usurpador Cláudio e o espectro do rei morto, borrando a fronteira entre o alvo da vingança e a memória paterna. Susana Ribeiro, como Gertrudes, compõe uma rainha de autoridade contida, equilibrando-se entre a sobrevivência política e a dor.

Gabriel Leone e Samya Pascotto- foto: Bob Wolfenson 
Samya Pascotto encarna uma Ofélia em desintegração emocional, culminando no mergulho para a morte, um dos momentos mais plásticos do espetáculo. No papel de Horácio, Felipe Frazão infunde a lucidez necessária mediante escuta atenta e lealdade melancólica. Bruno Lourenço projeta um Laertes de fúria instintiva que explode no duelo final. Já Fafá Renó confere ironia ao Polônio. Em sintonia, Rael Barja (Rosencrantz / coveiro), Daniel Haidar (Guildenstern / coveiro) e Davi Novaes (Marcelo / Osric) completam o grupo. Apesar de eventuais riscos, a experiência sensorial entrega um Hamlet pulsante.

Em cartaz no Nu Cine Copan (Av. Ipiranga, 200, Centro). Quarta, 20h; quinta, 20h30; sexta, 20h; sábado, 16h e 20h; domingo, 17h. Ingresso: R$ 25 a R$ 200.


(Edgar Olimpio de Souza é crítico da APCA)

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