O Retorno
CRÍTICA
Por Edgar Olimpio de Souza
O texto do dramaturgo norueguês Fredrik Brattberg é uma incursão visceral no estudo do luto, encarado como uma ferida que insiste em não cicatrizar. Compositor de formação, o autor tece um drama não convencional, marcado por frases curtas, humor seco e silêncios estratégicos. Como uma melodia em construção, a partitura dramática circular revela variações sobre o mesmo tema. Cada falecimento e ressurreição altera a cadência das mise-en-scène, num trânsito em espiral entre o melancólico ao acelerado e frenético.
Em cartaz em São Paulo, o espetáculo rompe com o realismo psicológico e instaura uma encenação com ares de pesadelo. Projeções nas paredes inscrevem a psique conturbada das personagens, emolduradas por trilha sonora de tons infantis e metafísicos. A iluminação tátil de Aline Santini, pontuada por cortes bruscos matemáticos, exerce função essencial. Através de um contraste claro e escuro que emula a pintura barroca de Caravaggio, ela sinaliza transições temporais e revela a engrenagem burocrática do luto.
Quem busca uma catarse acolhedora pode se incomodar com a estética fria e reflexiva, que evidencia o conceito artístico e os dispositivos tecnológicos. A montagem evolui numas chaves nunca óbvias. Uma mulher tropeça sem parar e o movimento se encerra ao vacilar das mãos, mas essa aparente ausência inviabiliza energias, porque há uma inversão ontológica da presença e da ação. No clímax, a lógica absurda se impõe: a memória se esfumça e o fantasma resta integrado à mobília da casa.
O elenco entrega performances críveis. Pedro Waddington vive o garoto cuja presença trava a perda familiar. Leonardo Medeiros e Helena Ranaldi interpretam os pais imersos na imobilidade. Aos poucos, passam a tratar o óbito pela via do pragmatismo, mais preocupados com as aparências da classe média do que com o evento do renascer contínuo. Na peça, o maior horror não reside na finitude, mas na incapacidade de permitir que o fim seja definitivo. Mesmo o impossível regresso de quem morreu acaba tragado pela banalidade, tornando-se um fardo difícil de sustentar.
SERVIÇO
Teatro do Sesc Santana
Estreou no dia 30 de Janeiro.
Sexta-feira, 27/02, às 15h, sessão com ingressos gratuitos para pessoas a partir de 60 anos. Retirada exclusiva nas bilheterias da rede Sesc SP.
Recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição
Sextas e sábados: 06, 07, 13, 14, 20, 21, 27 e 28/02, às 20h.
Domingos: 08, 15 e 22/02 e 01/03, 18h.
Sexta-feira: 27/02, às 15h.
Segunda e terça-feira: 16 e 17/02, às 18h.
Quinta: 26/02, 15h e 20h.

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