O Motociclista no Globo da Morte

CRÍTICA 

Por Edgar Olímpio de Souza 

Escrita por Leonardo Netto e agora em carreira paulistana, a peça tem como protagonista um matemático que se define pacifico, não assiste luta de boxe e fiirnes de guerra, sente náusea diante da violência. Ele enxerga a existência como um trajeto circular e previsível, comparando a convivência social ao movimento no globo da morte do circo - uma tentativa civilizatória de controle através da razão. 

Eduardo Moscovis- foto: divulgação 
Entretanto, o "homem de bem ve-se tragado pelo eclipse da lucidez e comete um ato brutal, num senso de justiça torto. Agora não busca o perdão, apenas anseia pela compreensão racional do momento em que o pilato dentro de si perdeu o prumo e ele calu no abismo.

Eduardo Moscovis manipula com maestria uma gama de nivels emocionais ao explorar a dualidade fascinante do personagem, ao mesmo tempo agressor e vitima. Sentado na cadeira, entre o autoexame clínico e o banco dos réus, ele confronta o deleite morbido da plateia. O ator infunde veracidade a um homem condenado a reviver feridas da infância e a ruptura moral do presente.

Com direção sóbria de Rodrigo Portella, a montagem inicialmente emula uma palestra confessional, porém logo se expande para uma investigação sobre os limites da empatia. Se a logica falha frente ao horror, o narrador conclul, por niilismo, que faz parte da natureza humana ser desumano. Somos uma espécie que deseja o extermínio.

No fim, ele não se sente libertado. Aprisionado em um looping de culpa, encara um Deus que não the oferece o esquecimento, Terá de se lembrar que seu único ato de coragem foi, na verdade, tão covarde quanto os outros. Sobra-lhe, então, listar massacres e guerras, transmutando seu crime individual em espelho da violência global.

O texto deixa claro que vivemos nesse globo da morte planetário, onde a linha entre a falsa mansidão e a infamia é muito mais tenue do que gostariamos de admitir. Essa jaula de aço esférica não é uma falha no sistema, mas o próprio design da humanidade. Um lugar onde todos correm em círculos, tentando não bater uns nos outros, embora presos a um movimento constante que torna o desastre inevitável.


SERVIÇO 

Sexta e Sábado às 20h00, Domingo às 18h00

Teatro VIVO - Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2460 - Morumbi, São Paulo - São Paulo

Ingressos: R$ 150,00 na plataforma  Sympla 



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