Adulto
Crítica por Edgar Olimpio de Souza
Escrita por Fran Ferraretto, a peça Adulto é um entrelaçamento entre o drama psicológico, a crítica social e a metalinguagem. Com diálogos incisivos, a obra estabelece um duplo filtro de realidade: a turbulenta trajetória do casal Sara e João e o processo de criação da dramaturgia.
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| Foto: divulgação |
O espectador logo descobre que a trama intensa é a peça escrita pela própria protagonista, que usa a autoria para reescrever e controlar sua realidade. O ato de Sara se tornar autora é culminante: no meio de uma discussão com João, ela muda o rumo da história e escreve a saída dele para o Uruguai, pavimentando seu próprio caminho para a liberdade criativa.
A montagem é pontuada por símbolos marcantes. A máquina de lavar roupa representa o caos doméstico e a culpa de Sara, e a jaqueta amarela, ao ser lavada, sela a limpeza simbólica do seu passado transgressor. A trilha sonora de Rafael Thomazini sublinha as tensões e chega a interferir intencionalmente nos diálogos.
Fran Ferraretto interpreta com desembaraço a ansiosa e ressentida Sara, que paga os boletos, se entope de remédios e trabalha até o burnout. Iuri Saraiva brilha na pele do fragilizado João, cujo complexo de perdedor o torna refém emocional da companheira e dependente financeiramente da mãe. Jennifer Souza dá vida à Paula, a feminista implacável que combate o machismo estrutural e defende a não monogamia. Já Sidney Santiago Kuanza incorpora o moralmente ambíguo Vitor, um sujeito que usa sua aparente generosidade como uma fria ferramenta de vingança e interesse próprio.
Com seu jogo de contrastes, Adulto expõe as feridas de uma geração que busca lucidez em tempos de massacres. Assisti neste final de semana no Teatro Alfredo Mesquita, aguardem a nova temporada em 2026.

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