“Jeca, um povo ainda há de vingar”: poesia, ancestralidade e resistência em cena

Ensaio de crítica por Arnaldo D’Ávila 

O espetáculo Jeca, um povo ainda há de vingar é uma obra de múltiplas camadas, que se desdobra em poesia, signos, misticismo, ancestralidade e representatividade. A trama gira em torno de um abacateiro, símbolo de memória e permanência, e acompanha a trajetória de uma família sertaneja, especialmente de um filho que parte para o mundo como cantador e retorna em diferentes momentos, encontrando tudo transformado. A peça fala dos moradores de um vilarejo, da relação profunda entre o sertanejo e a terra, e da força de um povo que resiste.
Jeca - Um Povo Ainda Há de Vingar  - foto de Pri Fiotti
A dramaturgia, assinada por Lucas Moura da Conceição, é construída a partir do álbum Refazenda, de Gilberto Gil, e do poema cênico de Marcelino Freire, que empresta a poesia de Gil para recriar uma história mística e potente. O texto é uma verdadeira obra-prima, que resgata o valor da palavra e da poesia no teatro, elementos que têm se perdido em meio à dramaturgia contemporânea. Por isso que Jeca se destaca, além de retratar o Brasil profundo, promove o resgate da ancestralidade sertaneja, valorizando o protagonismo preto com elegância e poesia, sem abrir mão da crítica social. Em um cenário teatral como o de São Paulo, com aproximadamente 400 peças de autores nacionais por ano, esse número já chegou a uma média de 500 titulos na década anterior a pandemia, segundo levantamento anual do crítico José Cetra Filho, quantas dessas peças são relevantes no quesito dramaturgia? Podemos perceber que os grandes números não conferem necessariamente qualidade, é importante reconhecer e celebrar espetáculos que realmente contribuem para a dramaturgia brasileira. Em 2025, Jeca já figura entre os trabalhos de maior relevância. 
Jeca - Um Povo Ainda Há de Vingar  - foto de Pri Fiotti
A primeira grande virtude do espetáculo é, sem dúvida, sua dramaturgia poética, aliada ao elenco afiado do Grupo 59 e à direção sensível de Kleber Montanheiro, especialista em musicais brasileiros. Com sua Cia da Revista, Montanheiro já nos presenteou com montagens memoráveis, de clássicos como Ópera do Malandro a criações originais como Tatuagem e o recente João, inspirado em João Cabral de Melo Neto. Em Jeca, ele assina também o figurino e uma cenografia bastante funcional, feita em madeira crua que remete a grandes paletes, alem de alguns praticáveis que entram e saem de cena, compondo um espaço cênico de beleza rústica e simbólica.
Jeca - Um Povo Ainda Há de Vingar - foto de Pri Fiotti
A ficha técnica é robusta, difícil falar de todos: Marco França assina a direção musical, os arranjos e composições originais, que dialogam com perfeição com as canções de Gil. A trilha é executada ao vivo pelos excecelentes músicos: Bruna Duarte, Bruno Menegatti, Dicinho Areias e Juliano Veríssimo. A idealização do projeto é de Mirian Blanco, atriz do Grupo 59, que coordenou a pesquisa, o dramaturgismo e a produção artística, entregando um resultado admirável. 

Felipe Gomes Moreira e Fernando Vicente se revezam nos papéis de Jeca Total e Narrador, com delicadeza e emoção. É instigante acompanhar a trajetória da personagem por meio de suas interpretações. Jane Fernandes brilha como a irreverente moto-taxista, e Thomas Huszar rouba a cena como o dono da loja de discos, responsável pelos momentos mais alegres do espetáculo. Completam o elenco Carolina Faria, Gabriel Bodstein, Gabriela Cerqueira, Mirian Blanco, Nilcéia Vicente e Nathália Ernesto. 

O desenho de luz de Gabriele Souza é ousado e vibrante. Ela utiliza com maestria os refletores moving lights, que definem os espaços sem competir com a poesia das cenas. O resultado é um desenho equilibrado, simétrico e esteticamente belo, que contribui para a construção da mística do espetáculo.

Jeca - Um Povo Ainda Há de Vingar  - foto de Pri Fiotti
Outro ponto alto é a abordagem ecológica. O texto critica com contundência a instalação de torres de energia eólica, que, embora consideradas fontes “limpas”, têm causado graves impactos ambientais, como a destruição de habitats e o extermínio de aves, algumas em risco de extinção. A peça levanta um debate necessário sobre o modelo de produção energética. Mais um mérito de Jeca, que não se furta a discutir temas urgentes.
Jeca - Um Povo Ainda Há de Vingar  - foto de Pri Fiotti
O único aspecto que merece atenção é a equalização do som dos microfones, que estavam com volume excessivo e agressivo, especialmente nas cenas mais efusivas. Ajustar esses níveis é fundamental para que a beleza do espetáculo não seja comprometida. Provavelmente uma falha técnica da estreia, mas que exige cuidado. Talvez uma única microfonista, Camila Cruz, para cuidar das dez vozes em cena, seja pouco.

Jeca, um povo ainda há de vingar é um espetáculo para assistir e reassistir. Uma ode à poesia, à resistência e à força do povo. Que ele vingue e floresça por muito tempo nos palcos. E viva Gilberto Gil! Torço para que ele assista esta linda recriação de sua obra.

Temporada: até 23 de novembro de 2025

Horários: Quinta à sábado, às 20h, e domingos e feriados, às 18h

Sessão vespertina: dia 05/11, quarta, às 15h.

Sessão com acessibilidade em Libras: dia 13/11, quinta, às 20h.

Ingressos: R$ 70,00 (inteira), R$ 35,00 (meia) e R$ 21,00 (credencial sesc)

Vendas: centralrelacionamento.sescsp.org.br e App Credencial SP (a partir de 14/10, terça, às 17h) e presencialmente nas bilheterias das unidades do Sesc São Paulo (a partir de 15/10, quarta, às 17h)

Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos.

Duração: 120 min. 

Gênero: Teatro musical

Sesc Consolação - Teatro Anchieta

Rua Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque. São Paulo/SP.

Tel.: (11) 3234-3000 - Capacidade: 280 lugares. Acessibilidade: Sim.

Na rede: @sescconsolacao - Site: www.sescsp.org.br/consolacao 




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