Aquela Cia, Galeano e as Veias Instagramáveis da América Latina
Por Arnaldo D'Ávila
Eu nasci em 1968, em plena ditadura, em Jaguarão na fronteira com o Uruguai. O livro As Veias Abertas da América Latina foi lançado em 1971 e, logo em seguida, censurado em vários países por todas as denúncias contidas em suas páginas, principalmente relacionadas aos Estados Unidos e seu apoio às ditaduras latino-americanas. Meu primeiro contato com essa obra foi em 1984; eu tinha apenas 16 anos. Apesar de já ter lido os principais expoentes da literatura brasileira, esse livro do uruguaio Eduardo Galeano me sacudiu de tal forma que nunca mais fui a mesma pessoa. Ainda era o final da ditadura militar brasileira, já vivíamos a abertura, e eu, apesar de bastante jovem, já entendia tudo o que se passava. As fofocas sobre as pessoas que fugiam pela fronteira para escapar das garras sanguinárias dos milicos, incluindo alguns políticos, como Leonel Brizola.
Eu tinha meu primeiro trabalho com carteira assinada, e a esposa de meu patrão, ao saber do meu gosto pela leitura e de minhas ideias revolucionárias de jovem rebelde, me emprestou o livro com mil recomendações para que eu o cuidasse enquanto estivesse em minhas mãos. Eu deveria conservá-lo encapado e não fazer nenhuma anotação, assim o fiz. Os trechos que me interessavam, anotava em um caderno. Eu cursava o segundo grau, o que seria hoje o ensino médio, e na minha escola havia uma espécie de show de talentos no final do ano. Cada turma tinha que apresentar algo: música, humor, esquetes, etc. Como eu já estava engatinhando no teatro e era um tanto abusado, propus que fizéssemos uma peça de teatro. De toda a turma, participaram seis colegas. Eu fiquei responsável por elaborar o roteiro, então peguei aquelas anotações e as recheei com músicas de Ary Barroso, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Mercedes Sosa e Violeta Parra. Algumas foram dançadas e outras entraram apenas como trilha para pontuar as cenas.
Conto tudo isso para expressar o quão importante foi para mim assistir à Aquela Cia apresentar justamente uma peça com alguns trechos do mesmo livro, com uma dramaturgia muito criativa e fragmentada, moderna, em um ritmo super intenso, como se passássemos o dedo pelo feed do Instagram, arrastando para cima, entrecortando cenas que são interrompidas e retomadas numa velocidade estonteante. Outros pequenos textos de Galeano são interpretados, e falas históricas de pessoas que passaram pelos horrores da ditadura são reproduzidas. É muito instigante assistir à peça As Veias Abertas 60 30 15 Seg principalmente pelo elenco: Carolina Virgüez, Matheus Macena e Rafael Bacelar que se desdobram em cena, trazendo as diversas referências latino-americanas. Carolina Virguez é natural da Colômbia, mora no Brasil a mais de quatro décadas, pode-se dizer que é uma atriz brasileira, mas suas raizes contribuem muito para tornar esta encenação ainda mais abrangente, rompendo as fronteiras culturais do nosso continente. O figurino de Fernanda Garcia é carregado de signos e elementos da cultura latino-americana, como a bandeira Wiphala e as máscaras de lucha libre; e na trilha diversa, tocada ao vivo por dois músicos: Pedro Leal David e Felipe Storino, que também assina a direção musical. Tudo isso em um cenário Instagramável elaborado por Aurora dos Campos e Marco André Nunes.
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| Matheus Macena e Rafael Bacelar e Carolina Virgüez Foto: Julio Melo |
Em uma entrevista já na velhice, Eduardo Galeano afirmou que provavelmente não conseguiria reler As Veias Abertas da América Latina, pois considerava sua escrita muito densa e árida. Ele explicou que, na época em que escreveu o livro, não tinha o preparo necessário para abordar temas tão complexos e que, com o tempo, passou a preferir textos mais curtos e poéticos, que dialogassem melhor com sua forma de pensar e escrever. Apesar disso, ele nunca se arrependeu de ter escrito a obra, reconhecendo sua importância histórica.
"A prosa da esquerda tradicional é chatíssima" Eduardo Galeano
Veias Abertas 60 30 15 Seg está em cartaz no Galpão do Sesc Pompeia.
🗓11 de junho a 4 de julho, de quarta a sexta,.às 19h.
Sessões extras 20 de junho e 4 de julho, às às 15h.
🕗60 minutos
🔞16 anos
📍Galpão do Sesc Pompeia - Rua Clélia, 93
🎟R$50 inteira, R$25 meia-entrada, R$15 credencial plena
Ingressos online clique AQUI. Ou nas bilheterias do Sesc São Paulo.

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