In On It: A Reinvenção da Cena no Tucarena

 Por Arnaldo D’Ávila

A primeira versão brasileira de In On It, do dramaturgo canadense Daniel MacIvor, nos apresentou o fascinante jogo de narrativa e metateatro de seu texto. Quando assisti à peça em 2010, no Festival Mirada em Santos, encantei-me pela estrutura dramatúrgica extremamente envolvente, brincando com tempos, perspectivas e camadas emocionais. No entanto, ao testemunhá-la agora no Tucarena, a obra adquiriu novas dimensões cênicas, tornando-se ainda mais instigante e imersiva.  

Emílio de Mello e Enrique Diaz 
A direção de Enrique Diaz, aliada às brilhantes atuações de Emílio de Mello e Fernando Eiras na montagem original, já garantia uma experiência teatral marcante. Nesta versão reformulada para a arena, o espetáculo assume uma nova dinâmica, agora interpretado por Emílio de Mello e pelo próprio Enrique Diaz. Juntos, os dois se revezam habilmente entre as dez personagens da peça, evidenciando o caráter multifacetado do texto e explorando ao máximo o jogo cênico que a estrutura arena proporciona. A iluminação, que já se destacava pela beleza e precisão, ganhou um impacto ainda maior ao abraçar todos os ângulos do palco, de forma equilibrada, criando atmosferas densas e sutis conforme as demandas do espetáculo. A luz não apenas desenha os espaços da ação, mas potencializa os estados emocionais e psicológicos das personagens, tornando-se quase um terceiro protagonista.  

Esse aprimoramento cênico foi fundamental para enaltecer o trabalho dos atores, que mantêm uma entrega impressionante ao longo da peça. Com uma atuação refinada e precisa, eles transitam entre diferentes camadas narrativas, conduzindo o público por um jogo teatral que desafia expectativas e interpretações. Cada gesto, cada pausa e cada transição se tornam elementos essenciais para a construção do espetáculo.  

In On It é uma peça que não apenas conta as histórias através dos papéis interpretados pelos atores, mas traz também o papel do espectador dentro desse processo, que muitas vezes é questionado diretamente pela proximidade, a quarta parede é quebrada o tempo todo, rompendo com a ilusão e nos dizendo: isto aqui é teatro. A montagem no Tucarena ampliou essa experiência ao tornar o público parte integrante da cena.

Com essa encenação, reafirma-se a força do teatro como espaço de experimentação e ressignificação. O texto de MacIvor, já potente por si só, encontrou um novo fôlego e uma nova maneira de ser experienciado. O jogo teatral não apenas se manteve, mas se tornou ainda mais intrigante, prova de que cada espaço cênico pode revelar novas possibilidades para a mesma história.

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